Lugar de mulher é onde ela quiser na política de Rondônia!
Não dizem que lugar de mulher é onde ela quiser? Mas em Rondônia não é bem assim! É no lugar que nos permitem ocupar na política. E já adianto que não temos muito espaço.
Assim, eu, Aline Leon, a partir de hoje, estreio minha coluna quinzenal junto ao Resenha Política para falar com vocês mulheres sobre Representatividade, Política e Direito Feminino.
Não sou apenas uma entusiasta da política. Sou observadora das suas falhas em um ambiente que insiste em nos silenciar.
Assim, esse espaço representa um lugar de fala para as mudanças que o sistema insiste em adiar sobre o espaço da mulher dentro da política.
E começo trazendo um panorama das cadeiras ocupadas por nós mulheres dentro do maior colégio eleitoral de Rondônia.
Na Câmara Municipal de Porto Velho, possuímos apenas duas cadeiras de vereadoras, o que não causa grande expressão na causa feminina, pois sequer uma dessas representantes do poder legislativo preside a Comissão de Direito da Mulher, que é presidida por um homem, que, inclusive, não toma providências no tocante às denúncias feitas por mulheres em desfavor de seus pares. É o famoso “passar o pano”.
Na Assembleia temos cinco Deputadas Estaduais, o que já nos acalenta, ainda que timidamente.
Observo, no entanto, que na prática essas representantes sequer conseguiram articular uma campanha incisiva junto ao governo do estado para cobrar a assinatura do Pacto Anti-feminicídio, ou sequer abrir uma Delegacia da Mulher após as 13h:30m. Ou melhor ainda: que funcione 24 horas.
Nossas representantes de fato abraçam a causa?
Na cadeira federal, temos apenas uma Deputada Federal.
Na prática, estamos sub-representadas na Câmara Federal, dentro de um eleitorado em que somos a maioria.
Não temos grande expressão de mulheres na política.
Somos poucas, e aquelas que chegaram lá não abraçam a causa como deveriam, muitas vezes perdendo tempo em causas inócuas ou repercutindo falas machistas.
A sub-representação feminina na política de Rondônia não é um acaso.
É fruto de uma combinação de fatores estruturais, culturais e partidários que se reforçam mutuamente, dentre eles:
- Cultura política ainda predominantemente masculina
Rondônia tem uma formação política marcada por:
- lideranças tradicionais masculinas
- redes de poder consolidadas entre homens
- baixa abertura para renovação
Isso cria um ambiente onde a mulher não é impedida formalmente de entrar. Mas não é estimulada a permanecer nele ou a desenvolver-se.
- Partidos não investem de verdade em mulheres
A lei exige cota de candidaturas, mas não exige, na prática:
- apoio estratégico
- recursos proporcionais
- visibilidade
Resultado: muitas candidaturas femininas são lançadas apenas para garantir nominatas, refletindo nos rumorosos casos comprovados de fraude à cota de gênero no Estado. Isso esvazia a competitividade e mantém o ciclo de baixa eleição feminina.
- Violência política silenciosa
Em Rondônia, esse fator pesa muito, embora pouco debatido:
- deslegitimação da fala feminina
- ataques pessoais (não políticos)
- isolamento dentro dos próprios grupos
Muitas mulheres até entram nesse meio, mas não permanecem. E as que lá chegaram não se perenizam, não criam raízes para a causa feminina e a formação de novas lideranças na política.
- Dupla jornada e realidade social
A mulher ainda carrega:
- maior responsabilidade familiar
- menor acesso a redes de financiamento
- menos tempo para articulação política
Política exige presença, articulação e constância, algo estrutural e tradicionalmente mais difícil para mulheres.
- Falta de construção de base feminina
Diferente de outros estados, Rondônia ainda tem:
- poucos movimentos organizados de mulheres na política
- baixa formação de lideranças femininas
- pouca mentoria e apoio entre mulheres
Sem base, não há continuidade.
- Conservadorismo do eleitorado (fator real)
Não dá pra ignorar:
- parte do eleitorado ainda associa liderança a figuras masculinas
- mulheres precisam provar mais, o tempo todo
Isso não impede eleição, mas dificulta muito mais o caminho.
Concluindo: Rondônia não tem poucas mulheres na política por falta de capacidade.
Tem poucas mulheres porque o sistema ainda não foi desenhado para que elas cheguem e, principalmente, permaneçam.
Enquanto a participação feminina for tratada como obrigação legal e não como estratégia de poder, a democracia no estado continuará incompleta.