OPINIÃO

País binário - quando ser “de um lado” substitui o ser humano!

No Brasil contemporâneo, a disputa política virou filtro identitário: ser de esquerda ou de direita, apoiar Lula ou Bolsonaro, transformou-se muitas vezes em critério de existência social.
Milton Júnior
País binário - quando ser “de um lado” substitui o ser humano!

Não se trata apenas de divergência programática ou de preferência eleitoral; é um padrão de comportamento pelo qual a pessoa parece obrigada a escolher um rótulo, e esse rótulo passa a determinar - e a limitar - a sua vida pública e privada.

Esse fenômeno, se observado em profundidade, indica um país adoecido, cuja polarização corrói laços sociais e reduz o debate à lógica do inimigo.

A primeira consequência desse binarismo é a desumanização do outro.

Quando a adesão a um líder ou a um conjunto de ideias vira sinônimo de virtude, o adversário deixa de ser interlocutor e assume a figura do inimigo: não se discute, extermina-se simbolicamente.

O bolsonarista que diverge de posições lulistas é frequentemente rotulado, estigmatizado e, em muitos espaços, excluído automaticamente - e o mesmo ocorre inversamente.

Essa prática desconsidera a complexidade das pessoas: sua vida cotidiana, suas dúvidas, seus medos e as circunstâncias que moldam escolhas.

Reduzir um ser humano a um rótulo político é apagar camadas inteiras de sua existência.

Em segundo lugar, o comportamento de “obrigatoriedade de lado” desloca atenções e energias de problemas concretos para disputas simbólicas.

Questões como saúde pública, educação, segurança, transporte, trabalho informal e infraestrutura tendem a ser tratados segundo o prisma da animosidade partidária: projetos práticos são avaliados por quem os propõe e não por seus méritos objetivos.

A consequência é que políticas públicas sofrem mais pelo enquadramento ideológico do que por avaliações técnicas; prioridades administrativas perdem espaço para retóricas de tribo.

Há também um efeito de silêncio: quem não se alinha de forma clara é muitas vezes percebido como invisível, ou, uma possível vítima de ataques violentos.

A neutralidade - real ou tática - não é aceita em muitos círculos; a indiferença política passa a ser interpretada como ausência de cidadania.

Assim, cidadãos que tentam manter vida privada e foco em suas atividades profissionais ou familiares acabam tendo sua relevância social reduzida.

Em termos práticos, “não ser de um lado” equivale, para muitos, a deixar de existir sociopoliticamente.

Esse quadro tem consequências democráticas.

Democracia pressupõe pluralidade, diálogo e capacidade de negociar soluções com base em argumentos e evidências.

Quando o cenário político se transforma em campo de batalha identitário, ficam sobrecarregados os mecanismos de mediação - imprensa, instituições, espaços comunitários - e enfraquecida a capacidade de construir consensos mínimos.

A polarização extrema pode levar a impasses institucionais, à deslegitimação de processos eleitorais e ao aumento da violência simbólica e material.

O diagnóstico não implica inocência universal nem relativismo moral.

Há posições políticas que merecem crítica firme; há práticas de liderança que exigem responsabilização.

O ponto central é outro: transformar qualquer pessoa em representante absoluto de um lado moraliza e simplifica demais a realidade.

Isso empobrece o debate e aumenta a hostilidade cotidiana: amizades terminam, famílias se fragmentam em almoços onde política é tabu ou arma; ambientes de trabalho se tornam campos minados por declarações e postagens.

Como sair desse impasse?

Algumas pistas práticas e normativas podem ser apontadas:

  • Primeiro, recuperar a centralidade do cotidiano: discutir políticas públicas por seus resultados e impactos concretos, mais do que pela representatividade da filiação partidária de quem as propõe.
  • Segundo, fortalecer espaços de mediação local - conselhos, associações, fóruns comunitários - onde interesses específicos possam ser negociados sem a intermediação do conflito nacional.
  • Terceiro, resgatar práticas de escuta ativa: ouvir o vizinho que pensa diferente sem reduzi-lo a rótulo, acolhendo com compreensão a complexidade das motivações individuais.

Por fim, ao meu sentir, imprensa e formadores de opinião devem deliberadamente priorizar reportagens que evidenciem problemas práticos e soluções testadas, não apenas manchetes de conflito.

Dizer que o Brasil está “adoecido” não é hipérbole retórica; é constatação de que a vida pública tem sido invadida por uma lógica que menospreza a diversidade humana.

A cura exige esforço coletivo: menos identificação absoluta com um líder ou um partido e mais compromisso com o bem-estar compartilhado.

Enquanto a política for vista como identidade única e inquestionável dos grandes caciques partidários, permaneceremos num ciclo de exclusão simbólica que empobrece a democracia e a vida em comum.

O desafio é simples na formulação e difícil na prática: permitir que as pessoas sejam mais do que um nome de campanha.

Só assim será possível retomar um espaço público onde o debate seja sobre problemas e soluções, não sobre anatemas identitários.

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